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Pausa no tempo

Uma pequena parada Apenas para respirar Cancela a rajada Preciso descansar
Corre tão rápido, finda Me deixa sempre a voar Espera por mim, linda  O tempo não vai esperar
Fico brincando com ele Mas insiste em continuar Digo que sei, sou dele Não há trégua, quer andar
Enquanto escrevo, penso Tento acompanhar Ele pensa e escreve, lento Ainda sim não dar
Aflição, tristeza e agonia Ele gosta de carregar A alegria, vazia, já se ia Quando ele resolve parar
Parou e me deixou entrar Agora, aqui do tempo  Só penso em sonhar Ainda lento, tempo - vento

Pista particular

Meu pequeno voo, grande No meu quintal pousa De longe tão pequeno, gigante Me faz ganhar da mariposa
Não enfrento fila Não fico refém do atraso Sou bem na fita Com essa pista de asfalto
Bem do alto tão linda Retangular e multicolor Não sabem que é finda Essa estrada de isopor

Me achou, o amor.

Não é que eu precise do amor É ele quem precisa de mim  Leva embora toda minha dor E me deixa feliz assim
Fico cantando pro alto Com fita de ser amante De posse dum tom contralto Finjo-me ser “un cantante”
Ele vem simples e delicado Sem escolher quem quer ser amado De qualquer jeito, qualquer agrado Faz o opaco se tornar claro

Encontro

Já estou de banho tomado Ansioso para te ver Venha logo ficar do meu lado Em teus braços quero me perder
Te conheço desde longe Muito antes de viver Vem ser meu horizonte  Teu sorriso não vou esquecer
Do teu lado nada importa Tuas mãos frias ou quentes Me deixam parado à porta Me fazem cruzar o continente

Sentimentos

Pensamentos vem e vão Meus sonhos ficam aqui Teu amor apenas de verão  Já me faz a dor sentir
O jeito meigo de falar Foi o que me conquistou A sua boca quero beijar E te mostrar quem te amou
Diversão quisera ter Não te julgo, és assim Só não esqueça de rever  Sei o que é melhor pra mim
Sentimentos não me prendem Nem me deixam sem sonhar  Já vou longe, não me entendem Mas eu sei o que é amar

Trem

Vejo a cidade da janela Passa rápido, depressa Sinto que é bagatela Ficar vidrado nessa
A paisagem que linda é  Me traz uma sensação  De choro e dor no pé Que ultrapassa o coração
Se descer terás que ver Prefiro por aqui ficar Toda a gente a perecer Sem um reino para reinar 
Da janela me sinto só Mas também seguro Não é problema, sei de có Jamais atravessei o muro

De cor

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Colorido não é Diferente já foi Beleza de fé  Amor pra nós dois
Azul, preto e cinza Tudo escuro, cor Tão leve que desatina Esse imenso amor 
Preto e branco  Sem vida, ida Antes manso Hoje um gorila
Apontado, o menino Por ser ele de cor  Seu nome foi Gino Chocolate bordô



Árvore da vida

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Quase redonda Com seus galhos Sem muita onda Não tem retalhos
Frutos sem vida Beleza sem pudor Árvore da vida  Cheia de amor
Grossa no caule  Exuberante na folha Pura vaidade  Sabe-se doutora 
Dá-se sombra Um pico de dor Ninguém a tomba Sem sentir seu sabor
Árvore da vida Tua beleza se fez Numa linda caída  Das folhas outra vez



Sem essa

Não tenho educação Porque o estado não quis Só se eu fosse burro Para esse destino infeliz 
Aceitar, não dizer nada Não sou eu, não é de mim Vou pra rua, da calçada  Quero o direto do sim 
O sim para humanas  Para os pensamentos Não sou cabeça de anta Tenho meus adventos
Se o rei não tem estudo E faculdade ele não gosta Eu recuso esse jugo Vamos deixar de prosa
Quero agora revolução  Mudança de verdade Sem essa de tesourão  Quero mais dignidade

Imperial

Quero apenas uma Para o calor espantar  Pode ser mais uma Para o coração acalmar
Mereço um pouco mais Juro que não terminei Sei que não, jamais Apenas uma eu ei 
De conversar tanto Após copos e copos Depois do império caído Já não ter mais assunto como tópico
A última já não recordo  Só sei que deve haver Se por fim ou por decoro Quero terminar de beber

Alegria

Vem numa rapidez Vai em um segundo Oh me segura de vez Não se vá do meu mundo
E essa tristeza ferrenha Insiste em aqui ficar Diz-me ser terrenta  Que logo vai acabar
Se digo fique Se imploro não se vá  Diz que não sou fixe Que devo chorar
E ela me faz rir Ela me faz chorar Alegria de vir Tristeza de apartar

O fuso

Eu amanheço antes E com calma te espero Uma força pulsante Feita de flagelo 
Com vento e frio Às vezes com sol Sinto arrepio O teu cortisol
Acordo querendo-te  Tento te contar  Tão cedo no oriente Tão tarde no lar
Horas antes de mim  Tempos depois de nós Não quero pôr fim No que sonhei para nós

Motivo

Eu não tenho motivo pra ficar Mas também não tenho pra ir Quisera o amor me encontrar E meu destino definir
Não preciso regressar Não preciso seguir em frente Não preciso fingir te amar Como uma alma doente
Quero ficar, sem ficar Quietinho a esperar O sol intenso raiar E eu poder jurar
Jurar que não irei Mas que também não sei Falar que ficarei Jurar que errarei
Apenas nada dizer Deixar a noite cair Se quiseres vir a ter Terás que se decidir
Motivo nunca tive Não será agora que terei Teu beijo era palpite O qual jamais acertarei
Não adianta pedir Ficar não é opção Como não tenho motivo Ir também não
Sem saber o porquê Com razão ou sem Decidi não quero ser O caminho de alguém

E essas voltas que o mundo dá?

Hoje você está aqui  Amanhã não sabe onde Se vê numa pista de esqui Depois descendo do bonde
Ama como nunca amaste Vive como nunca viveu Sente a dor de quem magoaste E suplica por um adeus
Diz sim para o novo Rejeita o velho abrigo Se alimenta de ovo E não teme o perigo
Fala bem do imprestável Ouve mazelas do amigo Afirma não ser negociável Sair cedo do esconderijo
Pede ajuda ao estranho Nega afeto ao conhecido Remete cartas ao bando E finge ter sucumbido
Dar meia volta e meia Regressa sem sentir dor Esquece que há lua cheia E que ela te deu amor
Tenta não recordar Para a dor não sentir Sabe que se for chorar Será quando partir
Aproveita ao máximo Antes da sirene tocar  Trata-se do mastro Que esqueceu de levantar
Significa que está em casa Que na cadeira se sentou Na sala secreta, covil de arma Trai a quem te

O caos

Tem sido como antes Uma loucura total O castelo caído de dantes É fora do normal
As armas que matam amor Os colapsos que rompem  Um tudo que causa dor E nada pode ser com ontem
Depois do oceano que seja Longe do calor continental Ainda há a tristeza Ainda que sejam temporal

Esse sou eu

Cabelo pro alto Pinta de guerreiro De origem nobre Que sabe o enredo  Não nego minha origem Amo minha cor Sou negro, sou raça  Transbordo amor
Só sei te dizer Que me prender jamais Sou dona Ivone  Que depressa se vai  Não quero tua cor Não sou teu senhor Tu também não é  Ninguém Zé mané
Escrevo como quero  Resplandeço como devo Sou nêgo não nego E de caô tô cheio
Sem rima, sem dó O tempo passou  E hoje sou só Que nem dominó
Só quero rimar  E rir sem parar Eu sou tu e tu é eu Nem sei que fim deu

Só se eu fosse mar

Só se eu fosse mar Para até o fundo ir Engolir o que é amar E tudo deixar de sentir
Só se eu fosse mar Para o som eclodir  A música cantar E o céu persuadir
Só se eu fosse mar Para a areia engolir Com ondas no ar E o sal exaurir