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Hoje me permito

Há tanto tema sobre o qual falar, tanta coisa para debater, mas hoje quero me permitir adentrar em mim e apenas pensar. Pensar sobre como tem sido minha trajetória, o quanto de mudança real tenho feito e qual impacto tenho causado nos diferentes tipos de pessoas que cruzam meu caminho a todo momento e eu o delas.
Quero entender de forma profunda até que ponto me compreendo e até que ponto compreendo o outro, quão importante têm sido os outros pra mim, quanta coisa que fui capaz de fazer e não fazer, os meus preconceitos, minhas neuras e cada atitude que foi propulsora de minha caminhada até aqui.

Hoje me permito, sem reserva, com a cabeça arejada e o coração vibrante a reivindicar tempo, espaço, direito de errar e o mais importante: amor próprio. Me permito ser o tema por alguns minutos e todo o resto do tempo ser condescendente com a temática do outro, me permito ser eu mesmo, concedo ao outro o direito de me vê como alguém que erra, cai e levanta.

Esse sou eu

Cabelo pro alto Pinta de guerreiro De origem nobre Que sabe o enredo  Não nego minha origem Amo minha cor Sou negro, sou raça  Transbordo amor
Só sei te dizer Que me prender jamais Sou dona Ivone  Que depressa se vai  Não quero tua cor Não sou teu senhor Tu também não é  Ninguém Zé mané
Escrevo como quero  Resplandeço como devo Sou nêgo não nego E de caô tô cheio
Sem rima, sem dó O tempo passou  E hoje sou só Que nem dominó
Só quero rimar  E rir sem parar Eu sou tu e tu é eu Nem sei que fim deu

Só se eu fosse mar

Só se eu fosse mar Para até o fundo ir Engolir o que é amar E tudo deixar de sentir
Só se eu fosse mar Para o som eclodir  A música cantar E o céu persuadir
Só se eu fosse mar Para a areia engolir Com ondas no ar E o sal exaurir

Preciso

Definitivamente preciso contribuir mais para a sociedade, essa mesmo, a que nega a liberdade, que marginaliza o negro, que trata com frieza a mulher e não estende a mão para a criança. Essa sociedade que têm os bons e os maus precisa ouvir minhas palavras.
Não são palavras de crítica, muito menos de aceitação, são sim, de resistência, da necessidade de transparecer a superação, da dor do outro ser minha e da responsabilidade ser compartilhada a medida que me disponho a ajudar quem de fato precisa.

Quero contribuir com uma voz que não é ouvida, com um olhar que nunca é compreendido, com um cabelo não convencional, com um histórico não uniforme e com uma vestimenta não condizente com o tão afeiçoado padrão. Com essa sociedade quero apenas o contraste, o enfrentamento cara a cara, o instinto transitando da fúria para a aceitação.

Cara amassada

Cara amassada  Noite mal dormida Roupa não passada Sem pinta de artista
Vida bagunçada Sem amor pra esperar Casa arrumada Nem devia estar
Do futuro nada vem Do presente é  Quase nada Não me atento ao que tem Pois da vida não quero nada

Por você

Não me importo de tentar Tuas histórias ouvir  Teus mistérios desvendar Tua alma sentir
Os contos sem nó As conversas de ti Sem um pingo de dó Não quero partir
Se teus olhos deixarem Se tuas mãos vierem Os meus lábios falarem No meu corpo diferem

A noite

A noite é silêncio É solidão a noite Algo vem à tona Meus olhos abertos
Meu coração vazio Meus braços abertos Meu sorriso frio Meu primeiro afeto 
A noite é triste É toda sem você Sem o som enfim Nada a merecer